SEM PALAVRAS
Era uma vez um povo, que vivia muito feliz, desde que se tinha memória.
Os seus contadores de estórias só falavam em abundância, sem saber de passado ou de futuro. Abundantes eram a natureza, as águas e as colheitas, e felizes os habitantes do Jardim do Senhor.
Os homens e as mulheres, alem do pouco que se tinha a empreender para manter a vida, - pois a comida pendurava das árvores e arbustos ou despontava da superfície da terra -, passavam o tempo cuidando das necessidades do cotidiano, juntando comida, fazendo apetrechos, ferramentas e outros objetos úteis, brincando, namorando, desenhando e esculpindo, - envoltos a flores e animais amigos.
Como todo o povo era de uma família só, havia pais, irmãos e filhos, primos e sobrinhos, e todos relacionavam-se entre se em alegria e inocência.
Não existiam maridos e esposas, não havia relações exclusivistas ou famílias restritas em torno de procriação e sobrevivência ou até para a estoquagem de suprimentos, que pudessem ser instituídas e protegidas por leis, contratos ou combinados particulares, pois não havia futuro que tivesse que ser assegurado. A vida acontecia no presente, o conceito de tempo estendia-se entre um pouco antes e um pouco depois de acontecimentos de relevância.
A fala era simples e sem dicotomias, não conhecia-se o bem e o mal, o certo e o errado, pois tudo era permitido nesta vida sem escassez e sem propriedade.
Havia muita bem-aventurança, muita amizade, sexo e prazer, indiscriminadamente, sem que alguém estivesse achando, que isso fosse algo de "extraordinário".
Não havia amor, não havia medo, nem ódio. Não se precisava destes termos, pois não havia consciência destas modalidades psicológicas. A índole paradisíaca desta vida não exigia estas distinções, por serem desnecessárias.
Os indivíduos eram livres para fazer o que quisessem. A magia da realização dos desejos fazia-se naturalmente, telepaticamente, pois não havia os obstáculos da dúvida mental, nem as resistências do livre arbítrio próprio, nem do alheio.
O clima era ameno sempre, fosse chuva ou sol, dia ou noite.
A vida acontecia no "AGORA".
Este é o estado de meditação, tão procurado e tão difícil de ser alcançado pelas pessoas dos tempos de hoje.
O problema está no Ego, no surgimento do Indivíduo.
A "expulsão do paraíso" e, com isto, a separação do Todo, do TAO, a perda do estado holístico, originalmente inconsciente e intrínseco, evocaram a individualização e o sofrimento.
O homem, se fazendo senhor da criação pela incumbência bíblica cristã, perdeu a inocência e, com isto, a felicidade. Fez se necessário o Novo Evangelho de Jesus, de que somente as crianças e os humildes de espírito alcançassem o Reino Eterno….
A meditação é um estado de ser, um momento regressivo, uma ilha atemporal no ambiente da nossa moderna consciência de "vigília". Ela é o Amor, o estado criativo eterno e sem fim, sem nome nem imagem, Deus em nós.
Na meditação, a magia se faz naturalmente, concretizando os princípios da Grande Harmonia no Organismo Primo da Manifestação.